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domingo, 24 de fevereiro de 2013


O vício da China em investimentos, por Zhang Monan
Enviado por luisnassif, dom, 24/02/2013 - 12:05
Do Valor Econômico
O vício da China em investimentos
Zhang Monan
O modelo de crescimento da China está ficando sem força. De acordo com o Banco Mundial, nos 30 anos posteriores à reforma econômica iniciada por Deng Xiaoping, os investimentos foram responsáveis por 6 a 9 pontos percentuais do índice de crescimento econômico anual médio do país, de 9,8%, enquanto a melhora na produtividade contribuiu apenas com 2 a 4 pontos percentuais. A China, confrontada com a vagarosa demanda externa, fraco consumo doméstico, aumento dos custos da mão de obra e baixa produtividade, depende excessivamente dos investimentos para conduzir sua expansão econômica.
Embora esse modelo seja insustentável, não há sinais de redução dessa dependência excessiva de investimentos. Na verdade, à medida que a China passar por um processo de maior intensidade do capital (aumento do capital por trabalhador), ainda mais investimentos são necessários para contribuir na elevação da produção e nos aperfeiçoamentos tecnológicos de vários setores.
No período 1995-2010, quando o índice de crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) da China foi de 9,9%, os investimentos em ativos fixos (investimentos em infraestrutura e projetos imobiliários) tiveram um fator de crescimento de 11,2, tendo apresentado aumento anual médio de 20%. Os investimentos totais em ativos fixos somaram, em média, 41,6% do PIB, sendo que em 2009 chegaram ao pico de 67% do PIB, nível que seria impensável na maioria dos países desenvolvidos.
Para chegar ao próximo estágio do desenvolvimento econômico, a China precisa de um novo modelo de crescimento. A dependência em relação aos investimentos não vai permitir que ela tenha crescimento de longo prazo estável
A alta taxa de investimentos também é explicada pelo declínio na eficiência do capital de investimento, o que se reflete na elevada relação produção-capital incremental (RPCI, que é a divisão entre os investimentos anuais e o crescimento da produção anual). No período 1978-2008 - a era da abertura e reforma econômica - a RCPI média da China foi relativamente baixa, de 2,6, atingindo seu ponto máximo entre meados dos anos 80 e início dos 90. Desde então, a RCPI da China mais do que dobrou, demonstrando a necessidade de um volume significativamente maior de investimentos para gerar uma unidade de produção adicional.
Como o acúmulo e a maior intensidade do capital aceleram o crescimento, acabam perpetuando o modelo de investimentos de baixa eficiência e estimulando a produção em excesso. Quando a produção supera a demanda doméstica, os produtores são forçados a aumentar as exportações, criando uma estrutura industrial voltada à exportação e altamente dependente de capital, que respalda um alto crescimento econômico. Embora a expansão do crédito possa amenizar isso em certa medida, o aumento da produção baseado na expansão de crédito, inevitavelmente, leva a riscos financeiros em grande escala.
Portanto, a combinação de investimentos, dívidas e crédito vem formando um ciclo de risco que se autoalimenta e encoraja a produção em excesso. Na esteira da crise financeira internacional, os bancos chineses foram instruídos a conceder créditos e investir em projetos de infraestrutura como parte do gigantesco pacote de estímulos fiscais e monetários da China. Como resultado, a relação crédito/PIB da China subiu em 40 pontos percentuais entre 2008 e 2011, com a maior parte da concessão sendo direcionada a investimentos de grande escala de empresas estatais. Nos últimos dois anos, o crédito bancário tornou-se a maior fonte de capital na China - uma situação arriscada, dada a baixa qualidade e a inadequação do capital dos bancos.
Enquanto isso, a forte demanda por moeda levou a M2 (base monetária ampliada) da China a aumentar para 180% do PIB - o maior patamar no mundo. O resultado foi um imenso muro de liquidez que desencadeou inflação, levou os preços imobiliários às alturas e alimentou um forte aumento no endividamento.
Como é de interesse dos governos locais manter os altos índices de crescimento da economia, muitos captam para promover investimentos de grande escala em projetos imobiliários e de infraestrutura. A política fiscal ativa adotado durante a crise financeira permitiu a rápida expansão das plataformas locais de financiamento estatal (empresas de investimentos apoiadas pelo Estado por meio das quais os governos locais levantam dinheiro para investimentos em ativos fixos) de 2 mil, em 2008, para mais de 10 mil, em 2012. Com o crescimento do endividamento dos governos locais, no entanto, os bancos começaram a considerar as plataformas de financiamento imobiliário e dos governos locais como um grande risco de crédito.
Da mesma forma, com importantes setores deparando-se com excesso de produção e desaceleração do crescimento do lucro, o déficit das empresas está em alta - e suas dívidas tornam-se um risco cada vez maior. Na verdade, a proporção de gastos acima da receita das empresas está em alta e a taxa de rotatividade de recebíveis, em queda. No terceiro trimestre de 2012, os recebíveis de empresas industriais somavam 8,2 trilhões de yuans (US$ 1,3 trilhão), 16,5% a mais do que no mesmo período de 2011, obrigando muitas a captar ainda mais para cobrir a lacuna, o que eleva ainda mais o endividamento.
De acordo com a GK Dragonomics, as dívidas empresariais chegaram a 108% do PIB em 2011 e a 122% do PIB em 2012, maior patamar em 15 anos. Muitas das empresas com alto endividamento são estatais e muitos dos novos projetos que iniciaram são "superprojetos", com o retorno do investimento demorando mais do que os bancos credores imaginam. De fato, a cadeia de capital de algumas das firmas muito endividadas poderia muito bem quebrar-se nos próximos dois anos, quando chegarem ao principal período de pagamento das dívidas.
Como resultado, o sistema financeiro da China torna-se cada vez mais frágil. A expansão dos investimentos em infraestrutura - que, segundo alguns informes, supera os 50 trilhões de yuans, incluindo a construção de estradas e ferrovias de alta velocidade - levará à expansão dos balanços patrimoniais dos bancos. Os créditos para investimentos e as gigantescas dívidas das plataformas locais de financiamento, somadas ao crédito fora dos registros canalizado pelo sistema bancário "paralelo", aumentam o risco de que os créditos inadimplentes abalem o setor bancário muito em breve.
Para chegar ao próximo estágio do desenvolvimento econômico, a China precisa de um novo modelo de crescimento. A dependência em relação aos investimentos não vai permitir que a China tenha prosperidade e um crescimento de longo prazo estável; ao contrário, pode muito bem infringir sérios danos de longo prazo ao desempenho econômico.(Tradução de Sabino Ahumada)
Zhang Monan é pesquisadora do Centro de Informações da China, da Fundação de Estudos Internacionais da China e da Plataforma de Pesquisas Macroeconômicas da China. Copyright: Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org
 

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