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domingo, 24 de fevereiro de 2013





















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Cicloativista defende a redução do número de carros nas ruas
 Enviado por luisnassif, dom, 24/02/2013 - 13:43

Por alfeu
Do Sul 21

Para cicloativista dos EUA, reduzir carros nas ruas é única opção

Samir Oliveira

A diretora da ONG Transportation Alternatives, de Nova York, Caroline Samponaro, está em Porto Alegre para participar do 2º Fórum Mundial da Bicicleta. Em sua primeira visita à cidade, ela diz estar “inspirada pela energia incrível dos ativistas daqui”. Para ela, Nova York demonstra a necessidade de uma discussão inevitável: a busca de alternativas para diminuir a supremacia do automóvel nas ruas das grandes cidades.

A organização de Caroline foi fundada em 1973 com o objetivo de propor alternativas ao transporte nova-iorquino, prioritariamente orientado para beneficiar os automóveis. No início, todo o quadro da ONG era voluntário, mas hoje a entidade já possui cerca de 10 mil integrantes e 25 funcionários em tempo integral, sobrevivendo da contribuição dos filiados e de doações.

O perfil dos membros da Transportation Alternatives é diverso. “Nossos filiados tendem a ser mais velhos e nossos ativistas, mais novos. Temos uma ampla base de apoio e estamos organizados em comitês nas cinco regiões da cidade. Cada escritório possui suas próprias campanhas locais, o que torna o ativismo muito dinâmico”, explica.

A luta dos cicloativistas de Nova York é pela retirada gradual dos espaços destinados aos carros de uso individual na cidade para que a coexistência entre usuários de ônibus, táxis e bicicletas possa ser mais pacífica, segura e sustentável. “O que realmente incomoda os taxistas não são os ciclistas, são os engarrafamentos. Os ciclistas são mais vulneráveis, por isso é mais fácil culpá-los. Mas a solução é reduzir o número de automóveis privados e dar mais espaço aos outros modais, assim não teremos que lutar uns contra os outros”, comenta Caroline.

Para a diretora da Transportation Alternatives, a luta por uma cidade diversificada em seus modais de mobilidade urbana é, também, a luta por uma cidade que valorize e democratize seus espaços públicos. “A área das calçadas e das ruas corresponde a 80% de todo o espaço público de Nova York. Nos últimos anos, a população tem se dado conta de que esse espaço é inseguro e inacessível para qualquer um que não seja motorista de carro”, observa.

A participação política

Caroline Samponaro acredita que a participação política dos ciclistas e dos cidadãos favoráveis ao fim do carrocentrismo é essencial para que as mudanças ocorram. Ela explica que, em Nova York, o nível de governo mais próximo do cidadão são os comitês locais nomeados pela prefeitura nas comunidades.

“São estruturas muito importantes politicamente. Eles agem na comunidade, mas não significa que a representem. Nosso trabalho, enquanto ativistas, é fazer com que as pessoas entendam que precisam ir às reuniões dos comitês para fazer pressão e assegurar que todas as vozes sejam ouvidas antes que as decisões sejam tomadas”, define.

Caroline entende que muitas mudanças podem acontecer quando os cicloativistas conquistam vagas na política institucional e cita o exemplo do departamento de transportes da cidade, que possui ex-integrantes de sua ONG em funções importantes. “É um departamento bastante progressista. Começamos a ver políticos mais jovens que entendem e se preocupam com essas questões, que sabem que é impossível sustentar um modelo de cidade voltado somente para os carros”, comemora.

Em novembro deste ano, Nova York terá uma nova eleição para a prefeitura da cidade. Caroline diz que a ONG está fazendo um trabalho de conscientização dos eleitores, já que o índice de participação nas urnas costuma ser bem baixo. “Às vezes, um candidato vence por cem votos. Temos que lembrar as pessoas que o voto delas é importante”, conclui.

A relação com a polícia

Nos estados unidos, o policiamento é uma competência municipal. Caroline Samponaro avalia que a relação dos ciclistas com a polícia de Nova York é bastante ruim e tenso. “Os policiais só se preocupam em aplicar multas por pequenos delitos. Se converteram em uma máquina de distribuir tickets (os bilhetes com as penalidades). Não fiscalizam ninguém por excesso de velocidade, que é a principal causa de morte nas ruas”, lamenta.

Ela diz que há “uma muralha entre o departamento de polícia e os ciclistas”. “Não faz sentido termos uma polícia que não utiliza seus recursos para atacar o que está matando as pessoas, que é o excesso de velocidade. Tentamos conquistar mudanças através de reuniões com os policiais ou de debates na mídia, mas não estamos conseguindo”, reconhece.

A ativista entende que Nova York precisa de um prefeito que queira assumir o ônus político de enfrentar o departamento de polícia e implementar mudanças culturais na corporação. “A mudança na polícia passará por determinações expressas de um prefeito. Mas é muito difícil. Em Nova York, a polícia é muito reverenciada pela população, colocam os agentes num pedestal. Quando se fala em questões como mobilidade urbana e ciclismo, eles dizem que têm coisas mais importantes com as quais se preocupar. Na mente deles, precisam realizar um intenso trabalho de contra-terrorismo. Essa tem sido a grande prioridade nos últimos 10 anos”, compara.

Parques e estacionamentos

Uma das principais lutas dos cicloativistas de Nova York é a abolição do uso de carros dentro dos dois principais parques da cidade: o Central Park e o Prospect Park. Ambos possuem ruas asfaltadas em seus interiores por onde circulam automóveis durante os horários de pico.

“Uma das nossas maiores campanhas é tornar esses parques zonas totalmente livres de carros. Eles são utilizados para lazer, são nossos espaços públicos mais importantes, onde as pessoas vão para relaxar. É uma loucura abrir os parques aos carros. Com tantas mudanças positivas acontecendo, deixar que os carros passem por dentro dos parques é prender Nova York ao passado”, reclama.

Outro problema enfrentado pelos ativistas diz respeito aos estacionamentos dos automóveis. Caroline Samponaro entende que é necessário limitar e dificultar o acesso dos carros na cidade. “Nova York é uma cidade com um custo de vida extremamente elevado. A única coisa que é possível fazer de graça é estacionar um carro. Queremos que a cidade se torne cara para os carros”, pontua.

Ela defende uma taxação sobre os veículos estacionados nas laterais das ruas. “A rua é uma infraestrutura que pertence ao público. Quem não possui carro é obrigado a conviver em ruas abarrotadas de carros. Se queremos realmente reduzir a utilização dos automóveis na cidade, precisamos fazer com que seja mais difícil estacioná-los”, propõe.

A preocupação com segurança

Caroline Samponaro diz que não adianta apenas ter mais pessoas utilizando a bicicleta como meio de transporte para que a cidade se torne mais adaptável a esse modal. A diretora da ONG Transportantion Alternatives entende que o caminho deve ser justamente o inverso.

“Sempre penso na minha mãe. Ela jamais utilizaria a bicicleta como meio de transporte, pois as ruas estão entupidas de carros. É preciso implementar políticas para tornar o ciclismo mais seguro, só assim teremos um cenário positivo para as mudanças”, defende.

A ativista observa que “não existe outra opção”. “As grandes cidades estão ficando sem opções. Em 15 anos, Nova York terá mais um milhão de habitantes. Não temos como suportar mais um milhão de carros nas ruas. É preciso fazer uma escolha”, alerta.

A reação

Apesar das conquistas dos ciclistas em Nova York, Caroline Samponaro explica que a reação está sempre presente. Ela comenta que, quando a prefeitura decidiu instalar ciclovias em uma grande avenida da cidade, acabou sendo processada por uma senadora do estado de Nova York que morava na região.

“Muitas pessoas ricas vivem nessa rua e ficaram incomodados. Manipularam dados e estatísticas para dizer que não era seguro ter uma ciclovia. Durante um ano inteiro, houve um ciclo de notícias terríveis para os ciclistas na mídia. Mas, no final, a população acabou percebendo que eles (críticos da medida) não eram os donos da rua”, recorda.

Ela entende que os maiores conflitos são “geracionais” e costumam ocorrer com pessoas mais velhas. E observa que o lobby da indústria automobilística é bastante forte no país. “Enfrentamos o lobby da Triple A (American Automobile Association). É engraçado, eles dizem que não têm nada contra nós, mas emitem comunicados demonizando os ciclistas. Possuem uma força enorme”, lamenta.

Para a diretora da ONG, é importante que mais pessoas se juntem à organização para fortalecer seu poder de incidência política. “Existe uma diferença entre o nosso atual poder político e o poder que temos capacidade de ter. Não basta termos pessoas que nos apoiam. É preciso que se juntem a nós, que debatam as causas em suas comunidades. Como movimento, já avançamos muito, mas ainda há muito o que fazer”, acredita.

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