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terça-feira, 30 de agosto de 2011

joão Pataro

Paulo foi além de todos os homens de fé quando, sem “um Paulo” a lhe preceder e pavimentar o caminho, disse: “Pois tudo é vosso, seja a vida, seja a morte, seja o mundo; sejam as coisas do presente ou do porvir; tudo é vosso, e vós de Cristo; e Cristo de Deus”. Depois dele tudo fica bem mais simples para os simples, mas para os complexos e viciados na vaidade das complexidades contadas como virtude, ou dependentes psicológicos da droga hibrida narciso-medusa — ainda há o que se discutir. No entanto, o que está dito é isso mesmo! É pegar ou largar! E qual é a dúvida? Ora, de fato a maioria foge do que Paulo disse, embora pregue sobre a vida abundante (como tudo, menos como vida), sobre a certeza do céu (hoje em dia... nem tanto; a certeza é para a terra somente), sobre a sujeira ou pureza do mundo que interessa, sobre o presente como sucesso, e o futuro como prosperidade, mas quase ninguém quer viver em plenitude o que Paulo de fato disse. E o que ele disse, sim, assim como se não soubéssemos ler nem mesmo o português? Ele disse que em Cristo já temos herança de tudo; o que quer que faça parte de “tudo” deve ser visto por nós como um “tudo em Deus”; pois tudo existe e subsiste em Cristo. Assim, é saber que a vida não é risco, é um abrir de infindas e imensuráveis oportunidades (Jesus é a Vida); que a morte não mata, mas apenas se oferece como Boa Porta para o que é infinitamente melhor; que o cosmos (qualquer universo) é nosso, pois é de nosso Pai, seja na terra, seja no espaço ou nos abismos dos mares, ou até em qualquer dimensão, posto que Jesus de Nazaré é Aquele em Quem Deus fez convergir todas as coisas, de todos os tempos, mundos ou dimensões; que o presente é Cristo e que o porvir é Cristo; pois o viver é Cristo e o morrer é lucro; e que toda essa herança decorre de sermos conscientemente de Cristo; sendo nós, por esta razão, criaturas-filhas que já existem no seio do Pai em razão de que a fé nos fez naturalmente de Deus em qualquer situação. Assim, tudo o que é de Cristo é nosso; e nós de Cristo; e Cristo de Deus; pois o Pai é tudo em todos. Isto está dito; e se crido gera uma incontrolável revolução no ser que discerne isto pela fé e se apropria como bem da Graça. O que não está dito, mais está implícito, é, entretanto, extremamente sério. Paulo não inclui o passado na herança de ninguém, pois ninguém possui o passado, o passado é que nos possui. Em Romanos 8 Paulo também não inclui o passado na lista de coisas e dimensões que não nos podem afastar do amor de Cristo. Sim! O passado não pode nos afastar do amor de Cristo, mas pode nos fazer deixar de gozar a alegria do amor de Cristo, do qual somos indivorciáveis em razão da fidelidade de Deus para conosco; e não o contrário. Aqui (II Co 4), entretanto, o que Paulo diz ao nada dizer acerca do passado, é que ele não existe entre aquilo a que se chama “tudo”. Tudo não tem passado. Tudo tem presente e porvir. Pois o passado não é herança de vida, mas apenas de fixação idolátrica no que já não é, e jamais voltará a ser. Daí a maior parte dos males da alma humana vir da decisão humana de fazer do passado sua vida e única herança. De tal fixação no passado vêm todas as neuroses, paranóias e toda sorte males da alma; especialmente as culpas e as fobias de ser. Se gasta cerca de 80% de nossa energia psíquica investindo-a no passado. E o passado é o diabo pra esperança e para a vida; especialmente porque o bom passado não nos persegue, mas apenas nos move adiante (nem por isso é objeto de ressalva por parte do apóstolo); todavia, o mal passado é o poder que nos tenta fixar em suas dores, culpas, vergonhas, abusos, mágoas e medos; e é dele que a maioria de nós se faz servo e escravo. Assim, nos agarramos ao que Paulo joga fora (pois, em Cristo, não foi incluído, senão para ser excluído); e, suicidamente, abrimos mão da vida como oportunidade de tudo o que é bom, da morte como passagem pra tudo o que é infinitamente melhor, do presente como o Dia onde cabe toda boa decisão, do porvir como a dimensão na qual ainda cabe tudo; e, agarramo-nos ao passado (como disse: suicidamente), onde já não cabe nada novo, mas cabe a nossa vida inteira, no presente e no futuro, caso nos entreguemos ao passado como o melhor do existir; ou como o que determina a vida; ou como carma ou culto de saudade. Ora, esta é uma das mais fortes operações da morte-que-mata no homem — que é o ler e ouvir tal oferta, e temê-la; enquanto ama a morte como fixação ao passado, no espírito de amor à morte da mulher de Ló. É você uma estatua do passado, com um retoque aqui, ouro ali? Pense nisto!

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